Página atualizada em 24/05/05

Abraço minha dor e ela não me deixa afogar; deixo que ela se afogue e ela me leva junto...
 

 

Administrando Minhas Próprias Crises
Como passei a entrar e sair de crises, SEM ENTRAR EM CRISE

A crise me coloca diante de um dilema básico: "ou eu vou definitivamente para a frente ou eu fico definitivamente para trás". É basicamente um momento para eu fazer escolhas que se tornaram inadiáveis em minha vida, escolhas que eu não posso mais ficar adiando à espera de que surja "uma hora mais adequada" para eu tomar as decisões necessárias e começar a agir.

Crise é um momento de confrontação entre QUEM eu sou e o QUE eu sou. QUEM eu sou é a minha única e verdadeira identidade, gravada dentro de mim desde antes do meu nascimento e que constitui o meu centro e o meu eixo existencial nesse mundo. O QUE eu sou é a famigerada coleção de rótulos que foram sendo colados no meu peito desde que eu nasci: homem, mulher, feio, bonito, inteligente, burro, pobre, rico, pai, mãe, filho, o escambau.   O QUE EU SOU tenta me confundir o tempo todo com o QUEM EU SOU. Mais do que me deixar confuso, O QUE EU SOU tenta substituir o QUEM EU SOU, para isso me oferecendo todo tipo de tentação e vantagens. O QUE EU SOU se utiliza de todas as técnicas de sedução e de marketing, honestas ou não, de modo a me convencer de que eu não sou QUEM EU SOU, mas O QUE EU SOU.  

Se eu optar em ser QUEM EU SOU, vence eu e vence o meu crescimento pessoal. Todas as perdas nesse caso serão compensadas pelo maior ganho de todos que é eu poder ser EU MESMO. Se eu optar em continuar sendo O QUE EU SOU, vencem os padrões, os papéis, os personagens e os comportamentos arraigados. Todos os ganhos nesse caso jamais compensarão a perda maior de todas que é a de eu não poder ser QUEM EU SOU, e ter que fingir para o mundo uma pessoa que não é, que não existe na minha intimidade, que existe apenas como uma "fachada" social. 

Toda crise é, assim, uma oportunidade para eu distinguir, com em grau cada vez mais elevado, QUEM eu realmente sou daquilo que os outros acham e/ou esperam que eu seja em casa, no trabalho, na escola, na sociedade. A crise é a minha alma, ou seja, a minha própria essência, lutando para libertar-se de rótulos, de estereótipos, de imagens cristalizadas. A alma sempre encontra aquilo que precisa para fazer crescer o QUEM EU SOU.
 

Um dia eu me dei conta de que estava completamente dominado por um conjunto de crenças e valores que eu, como indivíduo, nunca tinha escolhido ter e com o qual não tinha qualquer tipo de vínculo ou mesmo afinidade.

É sempre penosa, solitária e muito sofrida a decisão (e a ação!) de enfrentar os desafios que a vida coloca diante de mim na jornada para eu ser eu mesmo. Dá muito trabalho transformar esperança em mudança. Dá um medão danado deixar o comodismo de um mundo conhecido e seguro - ainda que totalmente insatisfatório e indesejado - e mergulhar no mar desconhecido e ameaçador da transformação pessoal, realizando mudanças profundas (algumas absolutamente irreversíveis!) no meu estilo de vida, nos meus papéis sociais, no meu trabalho, nos meus relacionamentos, na minha família, nas minhas crenças, no meu corpo, nas minhas idéias, nas minhas emoções, enfim, na minha própria vida, para alcançar o tipo de pessoa que eu quero ser e o tipo de vida que eu quero viver.

Na crise, ou eu cresço ou eu apodreço - não há meio termo. Dependendo da maneira como eu lidar com elas, minhas crises podem funcionar como grandes alavancas para o meu crescimento pessoal ou como justificativas e reforços para a minha estagnação, conformismo e resistência ainda maior às mudanças (que são sempre, em última análise, as verdadeiras causadoras de todas as minhas crises...).

Eu cresço com a crise quando digo adeus às estradas repletas de pegadas de pessoas que continuam a ir e vir sempre dos mesmos lugares para os mesmos lugares e resolvo trilhar o meu próprio caminho, ainda que eu não tenha, no momento da minha decisão, a menor idéia de para onde é que ele pode me levar (e mesmo que ele acabe não me levando a lugar nenhum...).

Eu apodreço com a crise quando me acomodo, quando encontra jeitos de ir sobrevivendo a ela sem ter que fazer nada com ela ou seja, sem tomar providência nenhuma, mantendo tudo do jeito que está, usando e abusando de justificativas do tipo é a vontade de Deus..., a gente tem que aceitar..., eu já passei da idade..., etc, etc. Essa, na verdade, é apenas uma maneira de negar os fatos e de adiar a crise, tornando-a, com o tempo, ainda mais imprevisível e insuportável.

Na crise, é a possibilidade de mudança que alimenta a minha esperança, assim como é o medo de mudar que alimenta a minha insegurança. Se eu tivesse a certeza - impossível e inviável - de que, tudo que eu preciso fazer daria realmente certo se eu fizesse, eu não teria nenhuma hesitação em mudar, e jamais eu entraria em crise. É o medo de mudar, ou seja, o apego às coisas conhecidas (ainda que insatisfatórias e indesejadas), que faz com que eu protele o máximo possível ou jamais tome qualquer providência concreta no sentido de mudar.

Uma Crise só se encerra pra valer quando eu consigo romper em definitivo com os padrões de comportamento que estão envenenando o meu dia-a-dia, que estão transformando a minha existência num inferno, por mais paradisíaca que pareça minha vida aos olhos dos outros.

Qualquer mudança de padrão pessoal envolve sacrifícios e aborrecimentos. Perdas são inevitáveis e os ganhos previstos nunca são totalmente garantidos. Mudar é sempre um ato de saltar no escuro, por mais evidências de que existe uma piscina de água morna e relaxante à minha espera.  A piscina pode estar vazia, sim. A piscina pode nem existir; ter sido mera especulação, como a lenda do Eldorado para os espanhóis na época do descobrimento. Uma coisa a vida me demonstrou: toda mudança tem ganhos, ainda que não sejam os esperados. Os espanhóis podem não ter encontrado o Eldorado, mas estenderam imensamente os limites das terras conhecidas.

Porém não é nada fácil abandonar padrões viciados de comportamento, mesmo que comprovadamente eles não funcionem mais, mesmo que tenham se tornado inoperantes e totalmente nocivos à minha saúde física, mental e espiritual. A questão é que a gente vicia até mesmo em sofrer, em viver mal. Sofrer, aliás, é um dos vícios mais disseminados na nossa sociedade. A prática diária do sofrimento reúne mais viciados do que o álcool e o cigarro juntos. Aliás, estes dois últimos, arrebanham muitos seguidores dentro do imenso contingente de sofredores. Sem falar que muita gente, baseada em crenças religiosas estapafúrdias, acredita que sofrimento vale até bônus para melhorar o seu handicap no além!

Para piorar ainda mais a já tão difícil tarefa de mudar o meu comportamento, praticamente todos os padrões dos quais eu preciso e quero me libertar continuam vigorando dentro da sociedade com toda força persuasiva de sedução, muitos, inclusive com status de "objeto do desejo" de uma ampla maioria da população. As outras pessoas vão achar que eu realmente pirei de vez  quando descobrirem que eu estou abrindo mão de papéis, personagens, cargos, posturas, atitudes, títulos, situações, posses e até de pessoas que elas justamente andam correndo atrás!

Há muito tempo eu desisti da idéia de pensar em mudança indolor, pois isso não existe. Para entrar na crise, muitas verdades precisam ser ditas, vistas e ouvidas. Para sair da crise, muitas coisas precisarão ser mexidas. E muitas outras coisas acabarão tendo que ser mexidas em virtude das mexidas que eu fiz nas coisas que estavam precisando de ser mexidas. Essas são tarefas quase sempre muito duras, que eu tento evitar a todo custo.

Em cada crise que enfrentei - e mudei - foi preciso muita paciência, muita saúde, muito entusiasmo e muita determinação para manter-me firme na direção desejada, para não desistir no meio do caminho (pois os resultados quase sempre demoram muito para começar a aparecer). E tudo que sei é que ninguém jamais pôde me dar estímulo e coragem para ir adiante a não ser eu mesmo.

Até hoje, o saldo de todas as minhas crises tem sido extraordinário: - tenho saído de todas elas mais crescido, ou seja, mais consciente dos meus próprios desejos e necessidades em permanente confronto com as minhas próprias possibilidades e limitações como ser humano.  

Em se tratando de crescimento pessoal, nada é mágico, tudo tem um custo (às vezes elevadíssimo!), tudo tem um tempo (as recompensas são poucas e podem demorar muuuuito tempo para aparecer) e tudo gera conseqüências (algumas agradáveis e outras quase insuportáveis). Tanto entrar pra valer quanto sair de crises é barra pesada mesmo. O custo emocional do meu crescimento sempre foi muito elevado. Mas eu aprendi a pagar, com satisfação, todas as contas do meu crescimento, em vista dos resultados altamente positivos de cada uma das crises pessoais que enfrentei e consegui superar.

 

O ano em que eu fiz 30 anos foi também o ano de uma crise existencial "braba" na minha vida. Entrei "numa de entrar numa" que parecia que eu não ia sair nunca mais do buraco sem fundo em que minha vida se transformou. Foi uma dor sem tamanho, um sofrimento só, uma angústia me apertando o peito, a cabeça ao ponto de estourar, com a tremenda sobrecarga de pensamentos conflitantes.  

Aquela era a primeira grande crise onde se defrontavam diretamente, numa batalha de fogo, QUEM EU SOU com O QUE EU SOU. Como todo mundo, eu também só conseguia me ver como os outros me viam, e ainda por cima acreditando piamente que era eu mesmo que estava me vendo daquela maneira. Portanto, se os outros me julgassem um fracasso, era assim que eu me sentiria. Se os outros dissessem que não era bom para a minha "masculinidade"usar uma determinada roupa, eu não a usaria.

Na verdade, eu estava sendo realmente um verdadeiro fracasso. Não por deixar de atender as sugestões, recomendações e expectativas dos outros ao meu respeito, não por não conseguir me enquadrar nos padrões e modelos a serem seguidos, mas exatamente pelo contrário disso. Ou seja, eu era um fracasso exatamente porque procurava me encaixar totalmente no que eles queriam de mim, ainda que isso significasse desprezar e desconhecer tudo que eu queria de mim.  Eu estava sendo um fracasso por deixar nas mãos dos outros a tarefa de definir quem eu sou.

Nem preciso dizer que daquela crise dos trinta eu não apenas saí, como saí numa versão muito melhorada do que eu era até então. Malhado na bigorna da dúvida e do medo, queimado até os ossos pelo fogo do risco, eu havia me transformado numa outra pessoa: - mais atento aos meus desejos e necessidades, mais centrado no meu próprio corpo, mais convicto das minhas próprias escolhas, menos exigente com minhas limitações e mais compreensivo comigo mesmo e com as outras pessoas. Em síntese, a crise tinha me ensinado a amar e a apoiar a pessoa que eu sou, em vez de ficar me desprezando e me machucando inutilmente por não ser (e tentando desesperadamente ser) a pessoa que os outros achavam que eu deveria ser (como eu já disse antes, toda crise surge exatamente do conflito entre ser "eu mesmo" e ser "alguém idealizado pelos outros: - família, amigos, sociedade, etc).   

Daquela época de intenso aprendizado, nasceu o meu primeiro livro, que é também o que eu mais gosto:
Eu, comigo, aqui e agora. O que escrevi nesta obra, foi e continua sendo uma bússola em minha vida. Hoje, 23 anos depois, tendo vivido mais uma dúzia de crises até piores do que aquela, acostumei a ver esses períodos difíceis como “rituais de passagem”, de um estágio de vida em que eu esgotei todos os recursos e atingi o limite do meu crescimento para um novo patamar totalmente novo e desconhecido, cheio de mistérios e desafios a serem explorados.

Alguns “chamados” da vida para que eu retorne ao caminho do meu Crescimento

  • Permanente sensação de "leve incômodo"

  • Situações que se repetem com freqüência cada vez maior

  • Estranhas coincidências

  • Turbulência mental

  • Vazio interior

  • Falta de significado nas coisas que estou fazendo

  • Sinais do ambiente

  • Sinais do meu próprio organismo

  • Angústia, ansiedade e depressão

  • Níveis insuportáveis de stress

  • Doença física

  • Choque traumático

  • "Sentimentos ilhados, mortos, amordaçados que voltam a incomodar" (como na canção de Fagner)

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